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Lei Rouanet na Berlinda

Capa do caderno Eu& do jornal Valor

Capa do caderno Eu& do jornal Valor

Abaixo, reportagem de Cadão Volpato e João Bernardo Caldeira, publicada no jornal Valor do dia 14 de novembro:

A gente não quer só comida

Governo defende maior participação do Estado na cultura e elabora proposta de reforma na lei de incentivo

A Lei Rouanet na berlinda

Se um artista do calibre de Cildo Meireles, consagrado como um dos
grandes nomes da arte contemporânea mundial, batesse à porta do
departamento de marketing de uma empresa em busca de patrocínio para
uma obra de arte que usa picolés de água como elementos catalisadores,
qual seria a resposta do interlocutor? Provavelmente, seria uma bela
negativa. Cildo, que está com uma elogiada retrospectiva em cartaz na
Tate Modern de Londres, não teve de passar por isso. Convidado pelo
Itaú Cultural para a mostra “Futuro Presente”, inaugurada no ano
passado, ele apresentou essa idéia – que, entre outros possíveis
significados, comenta a escassez de água no mundo nas próximas duas
décadas – e recebeu R$ 300 mil para executá-la.

Para o superintendente de atividades culturais do Itaú Cultural,
Eduardo Saron, a obra de Cildo teve a virtude de produzir uma reflexão
sobre o tema (o futuro) e agregar valor à marca do banco e do
instituto. “A pessoa pedia um sorvete no carrinho [eram dez espalhados
pela cidade] e o sorveteiro explicava: ‘Isto é uma obra de arte, os
desdobramentos dela estão no instituto.’ Muita gente que nunca havia
entrado no prédio da avenida Paulista, onde fica o Itaú Cultural,
apareceu”, afirma.

Essa compreensão do alcance da arte contemporânea não é a mais comum
entre os patrocinadores de cultura no Brasil. Na maioria das vezes, os
departamentos de marketing e de comunicação decidem pelo mais óbvio e o
mais fácil, isto é, a obra de arte que não oferece muitos riscos quando
agregada ao nome da empresa. “Agregar valor à marca” é apenas uma das
vantagens que os mecenas empresariais têm hoje no Brasil. Lançando mão
das leis de incentivo, as companhias conquistam prestígio entre o
público, em grande parte das vezes, usando recursos do Estado obtidos
via renúncia fiscal. Hoje, esse mecanismo representa 80% do montante
investido pelo Ministério da Cultura (MinC).

Mas a Lei Rouanet, principal fonte de recursos para a cultura do
país, está na berlinda. E com discussões alimentadas pelo próprio MinC.
O ministro Juca Ferreira tem realizado encontros em diversas capitais
para debater alterações na legislação e em seu principal mecanismo de
incentivo, criado pelo governo Fernando Collor em 1991. O objetivo é
delinear uma proposta de projeto de lei a ser enviada ao Congresso no
início do ano parlamentar, em fevereiro. A proposta do Executivo
envolve ainda as pastas da Fazenda, do Planejamento e a Casa Civil.

De acordo com a avaliação do ministério, a Lei Rouanet fracassou no
objetivo de trazer a almejada auto-sustentabilidade para o setor, que
se tornou dependente da renúncia fiscal como se fosse o único
instrumento capaz de viabilizar as atividades culturais. Os produtores
teriam se acomodado com o patrocínio e deixado de buscar retorno
financeiro. Os empresários teriam se habituado com a idéia de que
investir em cultura pressupõe apenas o uso de recursos públicos, sem
precisar investir do próprio bolso.

Ferreira, que discutiu o tema em São Paulo na quarta-feira, diz que
a Lei Rouanet é uma importante fonte de recursos para a cultura, mas
ele ressalta sua insuficiência para configurar uma política pública e
para os desafios da diversidade e da riqueza cultural do país. “Só no
Brasil o mecenato é pegar dinheiro do Estado para fazer filantropia
cultural”, afirmou num encontro em Salvador. Documentos do Minc indicam
que 3% dos proponentes de projetos culturais beneficiados pela Lei
Rouanet captam cerca de 50% dos recursos.

Para Yacoff Sarkovas, especialista em atitudes de marca e presidente
da Significa e da Articultura, a dedução fiscal é, de fato, um meio
“irracional, perdulário e ineficiente de investimento público, pois
transfere recursos do Estado para a área cultural sem nenhuma
estratégia de política pública”.

No ano passado, as leis de incentivo canalizaram R$ 1 bilhão para
atividades culturais. A previsão para este ano é chegar a R$ 1,4
bilhão. Segundo Roberto Nascimento, secretário de Incentivo e Fomento à
Cultura do MinC, a proporção de investimentos culturais feitos por meio
de renúncia fiscal é demasiada e inadequada. Isso porque, do seu ponto
de vista, esse peso implica um direcionamento financeiro feito pelos
patrocinadores, “o que obviamente não atende plenamente às necessidades
da sociedade”, diz Nascimento.

Nascimento considera que o ideal seria que o MinC tivesse mecanismos
mais equilibrados. “Queremos aperfeiçoar os mecanismos atuais,
incorporar novos instrumentos e fortalecer o próprio orçamento do
MinC”, afirma. Neste ano, a pasta recebeu 0,61% do orçamento federal,
um número que deve chegar a 0,7% em 2009, se não houver um
comprometimento maior por causa da crise financeira. A meta é ampliar
para 1%, conforme recomendação da Unesco.

Caso a nova proposta seja aprovada, atividades pouco atraentes para
o empresariado terão oportunidades com a estruturação dos fundos
setoriais (instrumentos de financiamento de projetos usados em outras
áreas como saúde e educação), que corrigiriam disparidades. O Fundo
Nacional de Cultura deve ser o principal mecanismo de financiamento da
política pública.

Que a lei de incentivo fiscal não funciona plenamente não resta
nenhuma dúvida. Do MinC aos artistas, passando por alguns produtores
culturais e pelos patrocinadores, todo mundo enxerga maiores ou menores
defeitos nela. O que alguns deles admitem é que, sem ela, não daria
para ficar.

Detalhe da capa do caderno Eu& do jornal Valor de 14 de novembro

“A lei precisa passar por um aperfeiçoamento. Não acho que esteja
errada”, diz Saron, do Itaú Cultural. “Ela precisa amadurecer, se
recontextualizar num Brasil que pouco tem a ver com o que era 17 anos
atrás.” Na opinião do executivo, a lei tem aspectos positivos. “O
principal deles é que ajudou a profissionalizar o sistema cultural do
país. Assim que surgiu a Lei Rouanet, as pessoas tiveram de aprender a
apresentar seus projetos, a fazer seus planejamentos, a desenvolver uma
forma de executar e prestar contas.”

O escritor gaúcho Paulo Scott, que suspendeu temporariamente uma
sólida carreira no direito para dedicar-se de corpo e alma à
literatura, também acredita que, na essência, a lei não é ruim. “O
problema é que o artista às vezes vira refém da figura do produtor
cultural, que existe para o bem e para o mal. As empresas ganham
promoção das suas marcas à custa dos contribuintes e, por uma questão
de mercado, querem seus nomes vinculados ao trabalho de quem já é muito
conhecido”, aponta.

Justiça seja feita à Petrobras, a empresa que mais investe em
cultura no país – somente no ano passado foram mais de R$ 170 milhões.
Segundo a gerente de patrocínios, Eliane Costa, a estatal “busca
agregar valor à reputação de sua marca com o patrocínio a projetos que
valorizam e incentivam a cultura brasileira não só no segmento da
produção, como também na difusão e fruição dos bens culturais”. Quem vê
o Grupo Corpo, de dança, em ação, reconhece facilmente a marca
Petrobras, que é uma das mais valiosas do país e da América Latina,
segundo os rankings de “branding”.

A dança, segundo o artigo 18 da Lei Rouanet, permite 100% de
abatimento fiscal. Outro artigo, o 26, permite apenas 30%. Do R$ 1
bilhão captado no ano passado, apenas R$ 100 milhões foram obtidos por
meio do artigo 26. A meta do MinC é ampliar a atuação do setor privado
vislumbrando um horizonte em que essa participação seja igualitária.
“Teríamos então R$ 900 milhões advindos da renúncia fiscal e outros R$
900 milhões provenientes da iniciativa privada”, diz Nascimento. “Por
que não criar um logotipo adequado para quem usa os 100% de abatimento
fiscal?”, sugere Eduardo Saron. A colocação dos logos das empresas é
regulamentada pela lei.

Outra proposta do MinC é criar um selo para empresas com
responsabilidade cultural. “Não vejo nenhum problema em haver projetos
com 100% de renúncia fiscal, desde que sejam importantes para a cultura
brasileira”, diz ele. Como parece evidente no caso do Grupo Corpo.

O Itaú Cultural escolheu os 30% do artigo 26 desde a fundação do
instituto, há mais de duas décadas. Significa que a empresa oferece uma
contrapartida. Ou seja, usa 70% de dinheiro do próprio bolso no
mecenato.

“No Brasil, o sistema de financiamento público às artes baseado em
dedução fiscal embaralhou as três fontes originais de financiamento: o
Estado, o investimento social privado e o patrocínio empresarial. E
muitos artistas e produtores ajudam a propagar o câncer do incentivo
fiscal”, diz Yacoff Sarkovas, um dos mais antigos e renitentes críticos
das leis de incentivo.

Num país como o Brasil, atrasado no quesito educação e incrivelmente
bem colocado no aspecto criativo, arte e cultura têm sido
insistentemente relegadas ao segundo plano. A autocrítica do MinC é que
o Estado tem pouco peso para cuidar dessa situação. Quando ele aparece,
transfere para as empresas a decisão sobre o que patrocinar.

“O Estado leva muito tempo, em todos os seus níveis federativos,
para reparar e aperfeiçoar o que não está bem, o que não é justo e
eficiente”, observa o escritor Paulo Scott. “O dirigismo hoje está nas
mãos das empresas”, diz o secretário Nascimento.

Produtores e consultores que defendem o modelo atual, no entanto,
argumentam que os projetos patrocinados são todos aprovados pelo MinC e
as empresas estatais federais e estaduais são responsáveis pela decisão
de 40% dos investimentos feitos por meio das leis de incentivo. Por
esse motivo, o dirigismo apontado pelo ministério seria frágil, pois o
Estado estaria bastante envolvido no que a Lei Rouanet viabiliza.

O tema provoca um acalorado debate ideológico. Enquanto a
responsabilidade social entrava na moda, o que de certa forma empurrou
as empresas para a discussão da cultura no país, o Estado andava meio
por baixo. “Há três ou quatro meses, ele estava absolutamente fora de
moda”, comenta Eduardo Saron. “E as empresas continuando a ocupar seu
papel de provedor de políticas culturais”, continua. “Mas aí o mundo
entra em crise, quebrando, e o Estado tem de intervir fortemente para
sustentar a economia. Acredito que, aos poucos, ele vai se fortalecer
cada vez mais como regulador, quando se tratar de cultura.”

O produtor Rodrigo Teixeira tenta ver mais longe: “O papel do Estado
é discutir com as empresas formatos de investimento para a criação de
uma indústria cultural.” Ele trabalha com direitos autorais e esteve
envolvido na produção de pelo menos um sucesso surpreendente, o filme
“O Cheiro do Ralo”, de Heitor Dhalia. “Sou um péssimo captador de
incentivos fiscais”, admite, porém. “‘O Cheiro’ foi finalizado por meio
de editais. Mas só em outras três ocasiões fui atrás de incentivos”,
afirma. “Tomei um ano de nãos por conta do filme.” Os departamentos de
marketing de diversas empresas se recusaram a apostar numa obra com
esse título. “O Cheiro do Ralo” foi realizado graças ao investimento
particular de algumas pessoas.

Teixeira encarou outro problema no projeto literário Amores
Expressos, que enviou escritores para uma temporada de um mês em
diversas cidades do mundo, com a missão de escrever um romance em
seguida. A idéia recebeu um bombardeio pesado vindo de todas as
direções. O centro da questão era que Teixeira levantava a
possibilidade de recorrer à Lei Rouanet. Escritores chegaram a reclamar
dos critérios de escolha do time de colegas que estava de malas prontas
para as viagens. Muitos outros criticaram as viagens em si e o luxo que
certamente estaria embutido nelas. No meio do tiroteio, Teixeira apenas
sacou o projeto do MinC, no qual ele ainda nem sequer havia sido
aprovado.

“Fui atrás de investidores que acreditam nesse modelo de negócio e
se interessaram em pagar a conta.” O resultado já começa a ser visto
nos livros que vão sendo editados pela Companhia das Letras, uma das
parceiras do projeto. E os desdobramentos podem vir na forma de filmes
e vídeos, como já constava na idéia original. Teixeira está aprendendo
a andar no terreno pantanoso em que se transformou a produção de arte e
cultura no país. “Sinto falta de gente jovem discutindo as políticas
culturais. A gente só vê a velha geração se pronunciando.”

O caso do Amores Expressos exemplifica bem o estado de ânimo geral
quando o assunto é lei de incentivo. E o próprio ministro Juca Ferreira
é dos mais críticos nos encontros que tem realizado com produtores
culturais. As sugestões para a reforma que pretende fazer na lei vão
surgindo de todos os lados, o que é bastante saudável. Sarkovas, por
exemplo, é favorável a uma redução da carga tributária. “Isso
beneficiaria a sociedade civil e ajudaria a construir um Estado mais
eficaz, que formule e implemente políticas públicas, financiando
diretamente as ações”, diz. “A dedução fiscal gera produção cultural da
mesma forma que dar dinheiro grátis para granjeiros gera produção de
galinhas. Além do mais, ela distorce o investimento privado real via
patrocínio de verdade, feito com dinheiro das empresas.”

O produtor Rodrigo Teixeira acredita em linha de crédito para
produtores culturais. “O governo deveria incentivar os bancos
governamentais a arrumar linhas de crédito, a juros baixos, para ajudar
a cultura, seja no teatro, no cinema, na produção independente de TV ou
na literatura.”

“Sinto falta de uma presença mais ampla de outras grandes empresas
entre as grandes incentivadoras de cultura. Afinal, o governo federal,
só em 2007, destinou cerca de R$ 1 bilhão à renúncia fiscal para a
cultura”, diz Eliane Costa, da Petrobras. É o que ela mudaria no atual
panorama do mecenato brasileiro.

Já Paulo Scott – cujos projetos recebem apoio de pequenos
empresários (”livrarias, editoras, cafés e gráficas”, ele explica) –
tornaria as ferramentas de acesso mais simples, menos burocratizadas e
menos dependentes da figura do intermediário. “Boas idéias nem sempre
dependem de produtores conhecidos e estabelecidos”, diz. “Também
priorizaria as obras de experimentação, as obras de resgate cultural e
histórico, de promoção da igualdade – é patético esse nosso hábito de
dar atenção só ao que já é superbadalado”, completa o escritor.

“Eu disse isso ao próprio ministro Juca”, afirma Eduardo Saron, do
Itaú. “Não adianta só mexer na Lei Rouanet. Se você mexer apenas nela e
não no orçamento do ministério e no Fundo Nacional de Cultura,
continuaremos tendo um sistema descompensado. Com orçamento tão baixo,
você sempre vai querer se valer da lei para fazer as políticas do
ministério.”

Seria uma discussão quase sem fim, não fosse o fato de o governo ter
anunciado a disposição de apresentar o resultado da conversa com a
sociedade para o próprio Congresso, no começo do ano que vem.

Mas também não significa que acabou. A famigerada Lei do
Audiovisual, uma ampliação da Lei Rouanet criada por Itamar Franco em
1993, ainda está em pé – e qualquer tentativa de discuti-la parece
bater num muro intransponível. Há muito que se fazer num país tão jovem
como o Brasil, e tão carente de cultura. Um país onde, segundo a
pesquisa do MinC, apenas 13% dos brasileiros freqüentam cinema alguma
vez por ano, 92% dos brasileiros nunca freqüentaram museus, 93,4% dos
brasileiros jamais freqüentaram alguma exposição de arte, 78% dos
brasileiros nunca assistiram a um espetáculo de dança, embora 28,8%
deles saiam para dançar.

Roubado do Blog da Reforma da Lei Rouanet.

Deus abençõe os fundos de investimentos na cultura…

Blogs

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Com a declaração da revista Wired sobre o Fim dos Blogs, o governo brasileiro se tocou e começou a criar alguns.

Acompanhe o blog da reforma de Lei rouanet

Entrevista Com Ronaldo Lemos

Em ritmo de Tim Festival o rraurl entrevistou o professor/advogado/curador Ronaldo Lemos, que esta lançando seu livro Tecnobrega. Lemos dá aula da FGV do Rio de janeiro e é diretor do Centro de Tecnologia e Sociedade (CTS) da mesma faculdade. Criador do site Overmundo e conselheiro do Creative Commons. O ex aluno de Harvard e entusiasta do Tecnobrega do pará fala de seu papel na escalção do Festival, os problemas de cancelamento, e responde a algumas reclamações. Junto tambem cologo outra entrevista dele onde fala de diretos autorais no mundo atual e a industria cultural. Lemos da uma verdadeira aula de Direitos autorais e curadoria de festivais.

TIM FESTIVAL 2008
A CURADORIA. BLACK MUSIC. E OS CANCELAMENTOS

Como é o trabalho de curadoria do TIM?

É um trabalho que acontece durante o ano inteiro e é totalmente profissional. Faço a curadoria para vários outros eventos e festivais no Brasil e fora (agora mesmo está rolando no MIS de São Paulo uma mostra de músicas eletrônicas periféricas, como a champeta, o kwaito, o bubbling, o kuduro e outros*).

A do TIM é sem dúvidas a mais desafiadora. É preciso assistir a muitos shows e nesse sentido ajuda o fato de que acabo tendo de viajar bastante. Além disso, é muito importante entender não só o que está acontecendo na música, mas também no mundo de forma geral, percebendo que idéia cada artista representa naquele momento. Além disso, o trabalho de curadoria muda a cada ano por causa da tecnologia, novos desafios surgem. Por exemplo, o fato do Brasil (e da América Latina) estar fora do circuito internacional de shows. Nem sempre é fácil convencer as bandas a tocar no país. E o segundo, o fato do conceito de “sucesso” ter-se modificado completamente.

(*N. do. A.: a mostra é parte da expo I/Legítimo: Dentro e Fora do Circuito, veja a programação aqui).

Para esse ano, no que diz respeito à música eletrônica e jovem, quais foram os preceitos?

Um dos princípios do festival é a diversidade. Nesse ano há várias vertentes diferentes de jazz, de música eletrônica. Tem punk cigano, hip hop, tem guitarrada paraense, tem funk carioca, e assim por diante. Sempre buscamos fazer um balanço do que houve de mais interessante em diversos segmentos musicais naquele ano. E também apontar tendências e apostas para o futuro, coisa que o festival sempre fez bem.

É bom lembrar que o TIM é um festival muito grande. Nesse ano, mesmo depois dos duros cancelamentos, o festival está trazendo 25 artistas que tocam no Rio, em São Paulo e no Espírito Santo. Em outras palavras, são mais de 50 shows em uma semana, em lugares diferentes. A produção de alguns é enorme. O Kanye West, por exemplo, está trazendo 36 toneladas de equipamento para o Brasil. Esse é outro critério importante: tornar possível ver shows no Brasil do jeito em que acontecem lá fora e que de outra forma dificilmente acabariam vindo para cá.

Mas algumas das críticas sobre a escalação de Klaxons e Gossip, por exemplo, é que elas seriam perfeitas numa edição de 2007, não agora esse ano. O que você acha disso?

Consideramos trazê-los para o ano passado também, mas não havia agenda. No entanto, as duas bandas continuam mais atuais do que nunca. Com relação ao Klaxons, está acontecendo um fascínio pela idéia de “rave”, uma nostalgia pelo final da década de 80 (com o seu “segundo verão do amor”) e o início dos anos 90. Esse é um espectro que vem assombrando a música pop mundial nos últimos anos e ainda vai dar muitos frutos. O Klaxons é um deles, especialmente por terem sido classificados como new rave.
TIM FESTIVAL
Nem sempre é fácil convencer as bandas a tocar no país. E o conceito de “sucesso” modificou-se completamente.A relação dos Klaxons com as “raves” é de afirmação e negação simultaneamente, o que torna a música deles tensa e interessante. Minha percepção é de que a banda ainda será muito relevante. Vai ser desafiador assisti-los ao vivo nesse momento de negação da rave (quem for esperando encontrar glowsticks vai se decepcionar). O Gossip também não poderia estar mais atual. É uma pena que tenham cancelado, inclusive de forma tão chata alegando outros compromissos de agenda. Uma das razões para a atualidade da banda é sua antítese a uma série de idéias muito fortes desse começo de século. Por exemplo, antítese à era Bush; a ideais específicos de beleza e preconceitos sexuais. O Gossip é uma das poucas bandas atuais cuja atitude punk se traduz em um caráter substantivo. Espero vê-los no Brasil em outra oportunidade.

Desde a primeira edição do TIM em 2003 o festival reserva um bom espaço para a música negra. Public Enemy, De La Soul, M.I.A., Cut Chemist, Beastie Boys, Spank Rock, etc.. Qual o estímulo para trabalhar em tal nicho musical? E quais foram os preceitos dessa vertente para 2008?

Nossa preocupação é mapear o que está acontecendo em várias vertentes musicais. Nesse sentido, não acho que musica negra seja um nicho específico. Estamos trazendo o Kanye West nesse ano porque é de fato um dos maiores artistas atuais. E não é pelos dez Grammys que ele ganhou. O enfoque dele com relação à música enquanto diálogo permanente com várias artes é muito interessante. É muito bacana ver a influência de artistas da vanguarda de artes plásticas na música dele (como a recente parceria com a Vanessa Beecroft) e de estilos inusitados como a filtered disco no seu último disco. É também bacana ver como ele é bem recebido por vários públicos, do rock ao eletrônico, que vão além do alcance do hip hop mainstream americano

Ainda sobre black music, o Yo Majesty chegou a publicar no MySpace datas no TIM, mas não foi anunciado. A dupla que seria perfeita tocando ao lado de Neon Neon, já que eles participam do álbum deles. O que houve?

Queríamos trazer as meninas do Yo!Majesty, inclusive para que tocassem junto com o Gossip (seria uma overdose de egos e gordinhas lésbicas no palco – seria incrível). Acontece que recebemos um e-mail do agente delas em agosto dizendo que a Shunda K, que era o maior talento no grupo, tinha saído da banda em meio a uma briga complicada. Isso causou uma série de instabilidades e o show havia mudado completamente. Por essa razão, achamos melhor cancelar e torcer para que elas se acertassem. Espero que esteja tudo bem agora.

(N. do A.: Entramos em contato com a banda e o manager, mas não obtivemos resposta. Apesar de não ter vindo ao Brasil por esse suposto “fim”, o MySpace da banda ainda lista datas de shows e Shunda como integrante.)

DIREITOS AUTORAIS
CONQUISTAS E DESAFIOS HOJE E PARA 2009

Em 2006, numa entrevista ao rraurl, lhe foi perguntado: <i>A questão do direito autoral acabou se tornando uma verdadeira guerra nos últimos anos. Que vitórias você destacaria, para ambos os lados? Gostaria que você respondesse a mesma pergunta analisando o período de 2007/2008.

A guerra continua. O direito autoral é hoje o campo de batalha onde serão resolvidos (ou não) diversos conflitos originados pela tecnologia digital e pela internet, como a questão dos remixes, o direito ou não de baixar música e assim por diante.

INDÚSTRIA CULTURAL
A música vive um momento muito bom, essa “crise” é muito mais da indústria do que da música. O desafio (…) é encontrar o equilíbrio entre o direito de acesso e a justa remuneração dos autores.Infelizmente sou bastante pessimista e acho que nessa batalha a sociedade está levando a pior com relação ao direito. As derrotas da socieades têm sido duras. A última, por exemplo, foi a aprovação da legislação chamada Pro-IP pelo governo Bush nos EUA (saiba mais). Ela endurece ainda mais as penas para violações de direito autoral, torna mais fácil processar “cúmplices” na violação autoral (como sites e provedores de internet) e cria a figura de um “Czar” do direito autoral nos EUA, com a responsabilidade de defender politicamente os interesses da indústria da música e de Hollywood em todo o mundo. É um péssimo exemplo.

Como exemplo de vitórias, uma das poucas é a aprovação da chamada Agenda do Desenvolvimento na Organização Mundial da Propriedade Intelectual, que abre chance de trazer um pouco mais de racionalidade para essa discussão no mundo inteiro, inclusive abrindo espaço para temas como o Creative Commons e o Software Livre, ignorados até pouco tempo na esfera internacional. Pelas propostas da Agenda, a propriedade intelectual não deve ser vista como um fim em si mesma, mas sim como um instrumento para a promoção do desenvolvimento econômico, cultural e social de todos os países. Isso em si já é uma mudança e tanto. Resta saber agora como ela será implementada nos próximos anos.

O compartilhamento de arquivos parece sobreviver a medidas da indústria fonográfica, a opções conciliadoras (o próprio Creative Commons) e até mesmo à tecnologia, já que não se depende mais apenas de softwares P2P para a troca de arquivos. Hoje, uma busca bem objetiva no Google Blog Search leva a inúmeras páginas, blogs e outros links com álbuns inteiros armazenados em sites como zshare e rapidshare. Fora os torrents da vida. O que você acha disso?

Acho o mesmo que o Paul Krugman, prêmio Nobel de economia deste ano. Conforme ele escreveu em um artigo recente no New York Times, a indústria da música precisa estar preparada para uma realidade econômica em que o custo da cópia e da disponibilização da música é zero (leia o artigo – “Bits, Bands and Books“). Isso é um problema que vai além da esfera jurídica. É efetivamente uma questão econômica. Ainda é possível tentar recriar artificialmente uma certa “escassez” para a distribuição da música através do direito, mas o custo disso será cada vez mais alto. A solução é investir tempo e dinheiro em novos modelos de negócio. A música vive um momento muito bom, essa “crise” é muito mais da indústria do que da música. E com ela existe uma oportunidade extraordinária para o surgimento de inúmeros modelos de negócio.

É impossível para a indústria e outros meios de controle acompanhar a velocidade de blogs musicais e controlar o compartilhamento de faixas e álbuns neles?

Certamente. Como mencionei acima, o conceito de “sucesso” mudou completamente. Ele não tem nada a ver mais com o que diz a Billboard e outras revistas de música, a televisão ou qualquer outra mídia. Não existe mais um “árbitro” único para o sucesso. A verdade é que a indústria já acompanha o que acontece nos blogs de MP3 e nas redes sociais para se orientarem sobre o que vai dar certo ou não. Há até um artigo recente mostrando uma correlação entre o número de dowloads de uma série de TV nova e seu sucesso ou fracasso na temporada seguinte.

Brincando um pouco de futurologia, quais serão os maiores desafios para a questão dos direitos autorais em 2009?

O desafio continuará o mesmo que em 2000: encontrar o equilíbrio entre o direito de acesso da sociedade e a justa remuneração dos autores. De 2000 para cá inúmeras oportunidades foram perdidas. Por exemplo, a indústria da música poderia ter feito de cara um acordo com o Napster. Muitos dos problemas e das insatisfações que vemos hoje não teriam acontecido. O próprio iTunes da Apple possivelmente seria bem diferente do que é hoje (e possivelmente até melhor, sem DRMs desde o início e com preços mais baixos). E a indústria como um todo estaria mais bem adaptada aos novos tempos.

Essa oportunidade, no entanto, foi perdida. Espero que pelo menos algumas das inúmeras novas oportunidades que surgem todos os dias sejam aproveitadas (por exemplo, que tal pensar em um acordo com os sites que trabalham com trackers privados?).

E você, baixa música ilegal?

Hoje não é mais preciso baixar música para o seu próprio computador. Praticamente tudo está online, seja no YouTube, no MySpace, na Last.fm e assim por diante. Pouca gente se deu conta, mas a idéia de cloud computing, em que tudo fica armazenado na própria rede (a “nuvem”) é uma tendência forte também para a distribuição de conteúdos. Isso, aliás, é o começo do fim da era do iPod. A próxima geração de players portáteis será wi-fi, e toda a música ficará armazenada na rede. O usuário poderá ouvir o que quiser na hora em que quiser sem precisar baixar nada para o próprio computador. Já há indícios de que o próprio iTunes está indo nessa direção.

Eventos

O pessoal do rraurl conversou com um dos proprietários do extinto clube Vegas em SP. Na conversa 2 temas recorrentes nos dias de hoje foram abordados o primeiro é o fato de que eventos não dão lucro no Brasil o outro o que representa um convidado VIP em uma festa.

[blip.tv ?posts_id=1390159&dest=-1]

O Financiamento de Filmes Está Mudando

http://digitalwaveriding.files.wordpress.com/2008/10/killbillbourne.jpg

http://digitalwaveriding.files.wordpress.com/2008/10/ironmanmatrix.jpg

Enquanto se discute o problema de “product placement” ilegal, Hollywood ja faz seu dever de casa a anos. Coisa que o Brasil não parece entender.

O site Antrep04.com fez um posters alternativos, com as verdadeiras “estrelas” dos filmes.

Who’s Your City?

Richard Florida, na Harvard Bussiness Review

floridahbr

Qual é a Sua Cidade

Um pouco mais de Florida:

Como estudante de Entretenimento na ESPM , entender a cidade que voce vive é um fator muito importante,pois nas profissões do ramo do entretenimento, a maior tendencia é se algomorar em cidades, como exemplo Los Angeles para o cinema e Nashville para a música, e Florida te ajuda a pensar nisso. A Revista Época fez uma reportagem sobre o professor:

O mundo é…acidentado

Richard Florida, o polêmico arauto das classes criativas, olha para o mundo globalizado e conclui que ele não é plano. O sucesso pessoal depende como nunca do lugar onde você escolheu morar: é um pico ou um vale?

 
 

Até o mês passado, o mundo era plano, ou caminhava rapidamente para sê-lo. Mas desde que Richard Florida lançou, em 4 de março, o livro Who’s Your City? (“Que cidade é a sua? Como a economia criativa está tornando o lugar onde você vive a decisão mais importante da sua vida”), o mundo parece, novamente, acidentado. O professor canadense de 51 anos, famoso por seus textos sobre as “classes criativas”, desafia o otimismo de Thomas Friedman em O Mundo É Plano. Propõe, em seu lugar, uma economia global dominada por 40 gigantescas megalópoles, na qual a localização é simplesmente o fato mais relevante da vida pessoal e profissional. “A inovação e os recursos econômicos continuam extremamente concentrados”, diz Florida. “É muito melhor para um profissional ambicioso estar em São Paulo ou no Rio de Janeiro, que eu chamo de Riopaulo, do que num lugar desimportante da Europa ou dos Estados Unidos.”

Há várias novidades nessa abordagem de Florida. A primeira é que ele reúne uma avalanche de dados para ilustrar a tese de concentração humana, econômica e intelectual em aglomerados de cidades – como Riopaulo -, que ele chama de megarregiões. Essas informações são resumidas em quatro tipos de mapas globais. Eles mostram as maiores aglomerações humanas, os picos de atividade econômica (baseada em luz elétrica, detectada por satélites), as áreas de ocorrência de inovações (com base em patentes) e a concentração de cientistas (veja os mapas no site http://www.epocanegocios.com.br). Sua conclusão é que as megarregiões concentram 50% da produção humana e 99% das inovações do planeta. E que a globalização está aprofundando, e não reduzindo esse fenômeno.

 

“A globalização tem dois lados”, escreve. “O primeiro e mais óbvio é a dispersão geográfica de funções econômicas de rotina, como a manufatura.” Ao mesmo tempo, prossegue, ocorre algo menos estudado, mas igualmente essencial. “Com a globalização, atividades econômicas de alto nível, como inovação, design, finanças e mídia, tendem a se concentrar em um número pequeno de localidades.” Florida chama essa convivência de contrários de dialética, um termo quase esquecido do vocabulário marxista. E arremata: “O erro que se comete em relação à globalização é tratá-la como uma espécie de proposição tudo ou nada. Não é o caso”, afirma. “A chave está em entender que o mundo é plano e acidentado ao mesmo tempo.”

Quando se trata de inovação, a concentração é particularmente dramática (veja quadro acima). Os picos mais altos estão em regiões metropolitanas ao redor de Tóquio, Seul, Nova York e São Francisco. Ou em cidades como Boston, Seatle, Austin, Toronto, Berlim, Paris, Helsinque e Taipé. São Paulo, Buenos Aires e Cidade do México estão na lista, mas perto do final. Essas são áreas, explica Florida, com ecossistemas que incluem universidades de ponta, grandes companhias, mercado de trabalho flexível e investidores que estão afinados com as demandas do mercado de inovação. Os capitalistas de risco, diz ele, têm inclusive uma regra de ouro, que proíbe investir em companhias que estejam a mais de 20 minutos de carro do escritório deles.

O mundo é…acidentado

Richard Florida, o polêmico arauto das classes criativas, olha para o mundo globalizado e conclui que ele não é plano. O sucesso pessoal depende como nunca do lugar onde você escolheu morar: é um pico ou um vale?

A concentração de empresas e pessoas inovadoras, afirma Florida, não é acidental. Ela decorre da lógica econômica. As idéias fluem melhor, são afiadas com mais rapidez e podem ser postas em prática em menos tempo quando os inovadores, os implementadores e os sócios capitalistas estão em contato diariamente, dentro e fora do trabalho. “As pessoas criativas não se juntam nas mesmas cidades apenas porque gostam da companhia umas das outras, embora isso também ocorra”, escreve o economista. “Pessoas e empresas criativas formam clusters por causa dos enormes ganhos de produtividade, economia de escala e troca de conhecimento que a densidade acarreta.”Ao telefone, falando de sua casa, o professor da Universidade de Toronto parece ansioso para divulgar suas idéias – e o faz com grande desenvoltura. Florida é uma pessoa pública, um sujeito simpático do tipo que aparece em programas de entrevistas na TV americana. Está acostumado a lidar com a discordância. Seu best-seller The Rise of Creative Class (“A ascensão da classe criativa”, ainda não traduzido em português) causou sensação e controvérsia, ao defender que concentrações urbanas que reúnem especialistas em tecnologia, artistas e homossexuais correspondem a um nível mais alto de desenvolvimento econômico. Alguns críticos acharam a coisa toda mal conceituada, mas agora Florida ampliou a idéia para o resto do mundo. “Escolher o lugar onde você vai morar é pelo menos tão importante quanto escolher a universidade que você vai freqüentar ou a pessoa com quem você vai viver”, afirma. “Se você mora em São Paulo, pode trabalhar ocasionalmente da praia, mas sua carreira vai ser feita na cidade, onde as outras pessoas e o crescimento estão concentrados.”

Em termos pessoais, o mundo acidentado de Florida sugere a necessidade de opções. Pode-se viver em comunidades menores e atrasadas – que ele chama de vales – ou mudar-se para o pico mais próximo. Nos vales está a segurança da vida familar e comunitária, com menor possibilidade de escolha afetiva ou profissional. Nos picos está o glamour da vida globalizada, com viagens e oportunidades existenciais e amorosas. Embora localizados em diferentes países, os picos são intensamente conectados entre si, criando a impressão, entre seus habitantes, de que o mundo todo é uma grande avenida, próspera e dinâmica. Não é. E aí entra a visão sombria do seu mundo acidentado.

Nos vales junta-se uma multidão ressentida, que vive à margem das inovações e dos privilégios da modernidade. “Esse é o grande embate político do nosso tempo, não a religião”, diz Florida. Sem condições de participar da parte dinâmica da economia, as pessoas são deixadas para trás e reagem com mobilizações políticas reacionárias, freqüentemente religiosas. O que se pode fazer? Tentar, com políticas públicas, diminuir a crescente concentração geográfica de privilégios. Mas, para isso, seria preciso abandonar a idéia de que o mundo é plano. “Enquanto os políticos repetem que 6 bilhões de nós vão trabalhar de casa, as pessoas excluídas estão ficando com raiva”, ele afirma. “Isso pode levar a uma guerra de classes.” Os picos contra os vales, quer dizer.

Título da tabela
* Baseado em patentes e ajustado em relação à população. **Usa-se a luz que é visível do espaço durante a noite como estimativa da atividade econômica, em combinação com números do PIB tradicional. *** Cascadia refere-se à macrorregião formada pela Colúmbia Britânica, no Canadá, mais os estados de Washington-Oregon, nos Estados Unidos.

A Ascensão da Classe Criativa

Mas um pouco de Richard Florida:

Carnegie Mellon University scientists test a soccer-playing robot built from a Segway personal transportation device (unmodified Segway at left).
Cientistas testam robô que joga futebol, criado a partir de um dispositivo de transporte pessoal Segway (à esquerda, Segway inalterado) (Gene J. Puskar/© AP Images)

A prosperidade e o sucesso pessoal dos americanos cada vez mais dependem de jovens trabalhadores e de outros que mostram criatividade, individualidade, diferença e mérito.

Richard Florida é professor de Administração e Criatividade na Escola de Administração Rotman, da Universidade de Toronto, onde também é diretor acadêmico do Lloyd and Delphine Martin Prosperity Institute. Recentemente escreveu Who’s Your City? [Qual a Identidade da sua Cidade?] Este ensaio é um excerto de seu artigo “A Ascensão da Classe Criativa” publicado originalmente na revista Washington Monthly.

Nota: Todos os anos, empresas grandes e pequenas fazem “recrutamento” nos campi universitários, especialmente nos campi das universidades mais conceituadas (como a Carnegie Mellon), enviando funcionários para conhecer e tentar contratar alunos. Na maioria das vezes, os estudantes mais procurados não se enquadram no estereotipo daqueles com as melhores notas nem dos que comparecem às entrevistas mais bem vestidos, mas, em vez disso, são aqueles que mostram mais criatividade.

Quando caminhava pelo campus da Universidade Carnegie Mellon, em Pittsburgh, em um belo dia de primavera, deparei-me com uma mesa repleta de jovens que conversavam e desfrutavam do tempo excelente. Muitos vestiam camisetas azuis idênticas com a inscrição “Trilogy@CMU” — Trilogy é uma empresa de software de Austin, com sede no Texas, conhecida por recrutar nossos melhores alunos. Caminhei na direção da mesa. “Vocês estão aqui para recrutar?”, perguntei. “Não, de modo algum”, responderam com firmeza. “Não somos olheiros. Estamos apenas passando o tempo e jogando um pouco de Frisbee com nossos amigos.” Que interessante, pensei. Eles vieram ao campus num dia útil, fizeram todo o trajeto desde Austin, só para passar o tempo com alguns novos amigos.

Notei um membro do grupo deitado na grama, vestindo uma regata tank top. Esse jovem tinha o cabelo multicolorido e espetado, o corpo coberto de tatuagens e vários piercings nas orelhas. Um preguiçoso, pensei, provavelmente toca em uma banda. “E então, qual é sua história?”, perguntei. “Oi, acabei de assinar contrato com esses caras.” Na verdade, como soube mais tarde, ele era um estudante talentoso que havia firmado o contrato mais bem pago a um graduando na história do seu departamento, exatamente nessa mesa sobre a grama, com os olheiros que não “recrutam”.

Que mudança em relação aos meus tempos de faculdade, há pouco mais de 20 anos, quando os alunos vestiam suas melhores roupas e escondiam cuidadosamente quaisquer tendências contracultura para mostrar que eram adequados à empresa. Atualmente, ao que parece, é a empresa que tenta se adequar aos estudantes. Na verdade, a Trilogy levou-o para comer e beber em festas regadas a margaritas em Pittsburgh e o mandou de avião a Austin para participar de festas particulares em casas noturnas da moda e a bordo de barcos da empresa. Quando telefonei ao pessoal que o recrutou para perguntar a razão, eles responderam: “É simples. Nós o queremos porque ele é um astro do rock.”

Embora estivesse interessado na mudança da estratégia de recrutamento das empresas, algo me surpreendeu ainda mais. Esse era outro exemplo de jovem talentoso que deixa Pittsburgh. (…) Perguntei ao jovem de cabelo espetado por que estava indo para uma cidade menor no meio do Texas, um lugar com aeroporto pequeno e sem times profissionais de esporte, sem uma sinfônica de peso, um grupo de balé, uma ópera ou um museu de arte comparáveis aos de Pittsburgh. A empresa é excelente, disse ele. Também há pessoas incríveis e o trabalho é desafiador. Mas o principal, disse ele, é que “é em Austin!” Há muitos jovens, seguiu explicando, e uma infinidade de coisas para fazer: um cenário musical promissor, diversidade étnica e cultural, excelentes opções de recreação ao ar livre e uma vida noturna fantástica. Embora tivesse várias boas ofertas de trabalho de empresas de alta tecnologia em Pittsburgh e conhecesse bem a cidade, ele disse que achava que a cidade não tinha opções de estilos de vida, diversidade cultural, nem atitudes tolerantes que pudessem torná-la atraente. Assim, resumiu ele: “Como poderia me enquadrar aqui?”

Esse jovem e as tendências de seu estilo de vida representam uma profunda nova força na economia e na vida dos Estados Unidos. Ele faz parte do que chamo de classe criativa: um segmento da força de trabalho de crescimento rápido, com excelente formação e extremamente bem-pago, de cujo esforço as empresas dependem cada vez mais para obtenção de lucros e crescimento econômico. Os membros da classe criativa executam grande variedade de trabalho em ampla diversidade de indústrias — da tecnologia ao entretenimento, do jornalismo às finanças, da fabricação sofisticada às artes. Conscientemente eles não pensam em si mesmos como uma classe. No entanto, compartilham um etos comum que valoriza criatividade, individualidade, diferença e mérito.

But will he make it to Austin? A college student manipulates information on his laptop computer.
Mas ele fará sucesso em Austin? Estudante universitário trabalha informações em seu laptop (© Jupiter Images)

A secretária criativa

A característica distintiva da classe criativa é que seus membros envolvem-se em atividades cuja função é “criar novas formas significativas”. O centro supercriativo dessa nova classe inclui cientistas e engenheiros, professores universitários, poetas e romancistas, artistas, profissionais do entretenimento, atores, designers e arquitetos, bem como a “liderança inovadora” da sociedade moderna: escritores de não-ficção, editores, figuras da área cultural, pesquisadores de centros de pesquisa, analistas e outros formadores de opinião. Os membros desse grupo supercriativo produzem novas formas ou desenhos facilmente transferíveis e de grande utilidade — como a criação de um produto que pode ser fabricado, vendido e usado amplamente; a descoberta de um teorema ou de uma estratégia que podem ser aplicados a muitos casos; ou a composição de uma música que pode ser executada inúmeras vezes.

Além desse grupo central, a classe criativa também inclui “profissionais criativos” que trabalham em ampla gama de indústrias de conhecimento intensivo, como setores de alta tecnologia, serviços financeiros, profissões nas áreas jurídica e de assistência médica e administração de empresas. Essas pessoas dedicam-se à solução criativa de problemas, utilizando corpos complexos do conhecimento para resolver problemas específicos. Normalmente, isso exige um alto grau de educação formal, portanto, elevado nível de capital humano. Pessoas que realizam esse tipo de trabalho podem, às vezes, descobrir métodos ou produtos que se tornam extremamente úteis, mas isso não faz parte da descrição da sua atividade básica. O que normalmente lhes é solicitado é que pensem por si mesmos. Eles aplicam ou combinam abordagens comuns de forma inusitada para resolver a situação, empregam muito discernimento e talvez tentem algo radicalmente novo de vez em quando.

Grande parte disso também se aplica ao crescente número de técnicos e de outros profissionais que empregam corpos complexos de conhecimento para trabalhar com material físico. Em áreas como a medicina e a pesquisa científica, os técnicos estão assumindo cada vez mais responsabilidade para interpretar seu trabalho e tomar decisões, ofuscando a antiga distinção entre o trabalho administrativo (realizado pelos tomadores de decisões) e o trabalho braçal (realizado por aqueles que seguem ordens). Eles adquirem seu próprio corpo específico de conhecimento e desenvolvem formas pessoais únicas de realizar o trabalho. Outro exemplo é a secretária nos escritórios reduzidos de hoje. Em muitos casos essa pessoa não apenas assume várias tarefas antes executadas por uma grande equipe, mas se transforma em uma verdadeira gerente do escritório — canalizando o fluxo de informações, criando e estabelecendo novos sistemas e, muitas vezes, tomando decisões importantes na hora. Essas pessoas contribuem mais do que com inteligência ou habilidades de informática. Elas acrescentam valor criativo. Para onde quer que olhemos, a criatividade é cada vez mais valorizada. Empresas e organizações a valorizam pelos resultados que pode produzir, e os indivíduos a vêem como um caminho para a auto-expressão e a satisfação no trabalho. Conclusão: quanto mais se valoriza a criatividade, mais cresce a classe criativa.

A classe criativa hoje inclui por volta de 38,3 milhões de americanos, quase 30% do total da força de trabalho do país — acima dos meros 10% na virada do século 20 e de menos de 20% nos anos 1980. A classe criativa tem considerável poder econômico. Em 1999, o salário médio de um membro da classe criativa girava em torno de US$ 50 mil (US$ 48.752), comparado com cerca de US$ 28 mil pagos a um membro da classe trabalhadora e de US$ 22 mil a um trabalhador do setor de serviços.

Não é de estranhar que as regiões com grande número de membros da classe criativa também sejam as mais prósperas e de maior crescimento.

Economia Criativa

Nessa semana aconteceu em Detroid, um encontro onde grandes pensadores (pelo que vi nenhum ainda traduzido para o portugues) das cidades criativas se reuniarão e debateram acerca desse tema. O Site Cultura e Mercado, faz um resumo do evento:

Detroit. Uma cidade que já foi um ícone mundial da industrialização e ainda hoje é o berço automobilístico das quatro rodas dedicou os três últimos dias a um tema estonteante: cidades criativas. O momento não poderia ter sido mais oportuno: meses após as estatísticas terem revelado que mais de 50% da população deste planetinha azul vive em cidades e semanas após a explosão de uma crise que aqui está sendo comparada à de 1929.

Os sinais começam a se fazer sentir: se no Brasil fomos surpreendidos com a corrosão do valor do real em 48% em um mês, na sede da indústria automobilística boqueabertos estadunidenses ouvem rumores de que a combalida General Motors está em vias de comprar a Chrysler e prestes a se fundir com a Ford, três titãs do setor. Resumo de uma longa e ainda desconhecida ópera da qual todos nós seremos protagonistas: parece ter chegado a hora de admitir que, de fato, o modelo econômico com o qual trabalhamos até agora e que aos trancos e barrancos tentava sobreviver, está em seus estertores. Bem, se foi este modelo que nos levou a esta crise, não será ele que nos tirará dela.

É exatamente para tentar debater novos modelos e rotas de escape que surge o tema das cidades criativas: não como epicentro dos problemas, mas de suas soluções. Afinal, são justamente os centros urbanos, pequenos ou grandes, industriais ou de serviços, de países economicamente ricos ou pobres, onde se encontra a maior concentração de talentos e criatividade por metro quadrado. É nesses locais, movidos por inventividade ou necessidade, por opção ou falta dela, que pessoas das mais diversas vertentes se encontram, interagem, convivem. E é contando com esse substrato que várias cidades tëm tentado transformar seu tecido socioeconômico, baseado em uma das poucas coisas que não são padronizáveis: sua singularidade cultural.

Tal foi o foco do Creative Cities Summit 2.0 (www.creativecitiessummit.com), durante o qual os palestrantes, em uníssono, mostraram-se preocupados, mas otimistas – e também foi essa a tônica da minha fala. Aquele típico otimismo que nos leva a arregaçar as mangas, escancarar olhos e ouvidos e tentar encontrar outras formas de ver uma foto e encontrar os erros no jogo de sete erros. Um deles, já flagrado com letras de néon: o excesso de investimento na ciranda financeira e não em ativos reais, embora muitas vezes tão intangíveis como a criatividade e a cultura. O efeito disso pode ser sentido aqui, onde a população despencou de 2 milhões de pessoas para 800 mil, nas últimas décadas, levando ao virtual abandono de bairros inteiros. Hoje, parte das antigas fábricas está sendo transformado em condomínios e espaços alternativos, tentando resolver dois problemas ao mesmo tempo.

Outro erro, enfatizado com tanto fervor que me senti em casa, embora aqui como aí questionado e ainda não resolvido: a tendência vista quase como natural que nossos governos têm, com raríssimas exceções, de investir cifras astronômicas em infra-estrutura e tão pouco em quem tem de lidar com elas, como aliás foi reiterado por três dos mais lidos pensadores da economia criativa: Richard Florida, John Howkins e Charles Landry, juntos pela primeira vez.

Em meio a tantas incertezas, surgem algumas conclusões. Primeira: a globalização da economia compartilhou problemas em escala jamais vista e não há como um país sair isoladamente da encrenca na qual o mundo se meteu. Nesta sopa de problemas, primeiro e terceiro mundo, indústrias, serviços e agricultura, pequenos e grandes países já se misturaram há muito tempo. Segunda: que cultura e criatividade fazem parte da resposta, tem sido crescentemente reconhecido. Afinal, se temos de arcar com os custos de uma crise, que a aproveitemos para mudar nossas prioridades. Algo que me fez estremecer, ao abrir o computador e ler que, em função da crise, o Ministério da Cultura deverá ter o orçamento de 2009 reduzido. Novos tempos, velhos dias.

O ótimo canal de palestras no google, no Youtube, contem uma interessante palestra com Richard Florida falando desse assunto. Vale a pena, e ja puz o livro dele na lista para ler.

In Rainbows

1 ano após o lançamento inusitado do album da banda Radiohead, são divulgados os dados sobre as vendas:

RADIOHEAD – IN RAINBOWS
A maioria dos fãs preferiram não pagar nada pelo álbum;
Só as vendas online arrecadaram mais dinheiro que o último álbum da banda lançado em 2003 (Hail To The Thief);
O download foi retirado do ar três meses após ter sido iniciado;
O álbum alcançou o primeiro lugar quando foi lançado fisicamente nos EUA e no Reino Unido;
A maioria das pessoas que baixaram o álbum preferiram o fazer via torrents, mesmo com a opção de não pagar nada no site oficial;
A banda vendeu 100 mil cópias do In Rainbows box set que continha material extra (incluindo faixas inéditas);
Se a média do preço dos álbuns estivesse muito baixa, a venda online sairia do ar;
3 milhões de álbuns foram vendidos somando todos os formatos;
As faixas do álbum foram tocadas 17 milhões de vezes no Last.FM;

A Crise Começa a Afetar o Entretenimento

Reportagem Hoje da Folha Sobre o mercado de shows no Brasi:

Crise deixa mercado de shows em alerta no Brasil

THIAGO NEY
da Folha de S.Paulo

A crise econômica deflagrada nos Estados Unidos já atinge a “economia real” do entretenimento brasileiro. Empresários e produtores de shows estão tomando medidas para evitar prejuízos financeiros com a alta do dólar.

Entre essas medidas, está a suspensão da contratação de artistas internacionais.

“Tivemos que suspender três negociações que estavam em andamento”, afirma William Crunfli, sócio da produtora Mondo (alguns artistas que a empresa já trouxe ao Brasil: Coldplay, RBD, Muse, Bob Dylan, High School Musical, Iron Maiden; artistas que trará ao Brasil: REM, Offspring). “Para 2008, já estamos com o calendário fechado”, diz.

Mesmo produtores que já fecharam contratos para shows neste ano sofrem com a desvalorização do real. Normalmente, as bandas internacionais recebem cerca de 50% do valor do cachê na assinatura do contrato e o restante poucos dias antes da apresentação.

Questionada pela Folha se a crise econômica prejudica o Tim Festival, Monique Gardenberg, da produtora Dueto, respondeu: “Enormemente”. (O Tim Festival acontece no Rio de Janeiro, em São Paulo e em Vitória no final deste mês.)

Já André Barcinski, proprietário do clube Clash, local que receberá até o final do ano DJs como Laurent Garnier (França) e Dave Clarke (Inglaterra), afirma que a casa teve cerca de 40% de aumento no custo dessas negociações.

“Os contratos são fechados tendo o dólar como moeda de referência. Grande parte do cachê será paga quando esses artistas desembarcarem no país. E o aumento do dólar influi não apenas no cachê, mas nas passagens aéreas, impostos, vistos de entrada no país…”

Ingressos

Quando o custo de um produto sobe, normalmente é o consumidor quem paga por isso. No caso dos shows, algumas produtoras descartam o aumento no preço dos ingressos.

“Não vamos passar para o preço dos ingressos, que já estão no teto”, afirma Crunfli. E como equacionar isso?

“Vai bater na porta dos artistas”, afirma o sócio da Mondo. “Todos vão ter que ganhar menos, inclusive os artistas. Eles vão ter que entender a situação e ganhar menos.”

Se em 2008 São Paulo recebeu/receberá quantidade expressiva de grandes shows e festivais (Motomix, Orloff Five, Skol Beats, About Us, Helvetia Music Festival, Häagen-Dazs Mix Music, Tim Festival, Planeta Terra, Nokia Trends, Madonna, REM, Kylie Minogue, Duran Duran, Interpol, Bob Dylan etc.), para 2009 a expectativa é bem mais tímida.

“Para o ano que vem, a questão do dólar vai afetar”, aponta Bazinho Ferraz, presidente da B/Ferraz (produtora de Skol Beats, GAS Festival, Planeta Terra e que planeja montar um novo festival em 2009).

Para Ferraz, a retração no mercado de shows ocorrerá não apenas no Brasil, mas na Europa e nos EUA. “As bandas internacionais terão menor demanda. Esse é o cenário positivo, pois a agenda dessas bandas não estará tão cheia e será mais fácil achar datas para elas virem ao Brasil. O lado negativo é que o dólar tende a ficar em alta e nossos custos aumentarão.”

Patrocínio

Os grandes festivais de música pop no Brasil são bancados em grande parte por empresas privadas. Esse suporte financeiro diminuirá com a falta de liquidez no mercado?

“Compartilho da visão de que o Brasil está mais forte hoje, com boas condições para manter seu crescimento apesar da crise financeira americana, que tem conseqüências mundiais”, diz Gardenberg. “E as empresas privadas não devem olhar só para fora, temos muitas coisas bacanas aqui no Brasil que precisam ser produzidas, que precisam circular. Talvez essa crise venha a provocar esse olhar para dentro.”

Para Bazinho Ferraz, “vai ficar mais caro [o custo desses festivais]. Mas as empresas não vão deixar de fazer festivais. Em vez de termos eventos sustentados apenas por uma marca, aparecerão festivais bancados por vários patrocinadores”.

O que extrair desta notícia?

A primeira coisa é, Monique Gardenberg se entrgou, convenhamos, O Gossip não cancelou por motivos de Agenda… E se preparem que se nada mudar, 2009 tem tudo para ser aqueles anos que nada acontecia no Brasil, só tocavam artitas acabados do nível de Stephen Wolf. Surgiro tambem já com o dolar alto, porque não fazer um intercambio de bandas na América Latina? A Argentina, o chile, Uruguay estão cheios de bandas muito boas que raramente monstram a cara em terras tupiniquins.

Como as empresas vão ficar no pós crise

E a crise continuo e a internet fica cada vez mais criativa[]

 

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Entenda a Crise Econômica

Direto do Portal Literal, a crise explicada sem Economês

Entenda a crise: um exemplo prático.

Imagine um ponto de drogas, uma boca no meio da favela da Vila Califórnia onde o dono é conhecido como Bucha. Bucha costumava vender drogas para blogueiros, pastores de igreja e atores globais que, por medo da exposição, costumavam pagar rapidamente.
A bocada estava meio devagar, pois um árabe fez alguns ataques, difamando seu produto numa lista de discussão da internet chamada al qaeda. Para levantar a moral e aumentar a lucratividade, Bucha decidiu vender pó fiado a outros tipos de clientes, como pessoas com graves problemas de dependência química, desempregados e jornalistas que faziam matérias por ali. Com isso, aumentou sua fatia de mercado e começou a cobrar o dobro desses caras para compensar o crédito fornecido.

O plano deu certo, em pouco tempo a popularidade da boca de Bucha aumentou e seus fornecedores, traficantes maiores, ficaram tão empolgados com a crescente demanda que começaram a adiantar a mercadoria para ele em troca da enorme dívida de seus clientes nóias. Depois, para negociar os lotes de drogas, esses traficantes repassaram as garantias dos nóias do Bucha aos produtores de farinha, que repassaram pra galera da torre de quinta, que repassaram para os plantadores bolivianos, que repassaram para a Narcisa Tamborengere.

Assim, sem ninguém saber a origem, essas dívidas nóias foram repassadas até se tranformarem em fundos de pensão, fundos de investimentos, cdb, rbd, dst, fhc, títulos, ações, debentures, derivativos da bm&f, créditos de celular, tickets de refeição, opções da bovespa e muitas outras siglas e recebíveis negociáveis em camelôs, bancos e bolsas de valores em mais de 50 países ao redor do mundo como se fossem garantias sérias de que alguém pagaria alguma coisa algum dia.

Enfim, pressionado pelos credores e sem clientes (estavam todos mortos), Bucha declara a falência de sua boca e todos descobrem que esse dinheiro simplesmente não existe: são as dívidas daqueles junkies sujos malditos que não pagaram pelo pó consumido e morreram de overdose. É isso. Agora ninguém confia em ninguém.

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