Walter é um gênio no que faz, fala o que tem que falar sem enrolação criando o que ele chama de jornalismo boçal. Um texto dele sobre festivais de cinema.

COMO SOBREVIVER A UM FILME-CABEÇA (OU “TEM UM FILME AFEGÃO NA MINHA SOPA”) .
Começou aqui em São Paulo a 29ª Mostra BR de Cinema, a maior concentração de usuários de óculos quadradinhos e de alunos de semiótica do universo. Por mais de uma semana, em todos os ateliês, escolas de yoga e salas com pufe quadriculado, não se falará em outra coisa. Tá afim de encarar? Acompanhe o nosso guia de sobrevivência.

É fácil acompanhar a mostra?
Não. Sobreviver no deserto sem água por 5 dias é fácil. Sobreviver a 332 filmes não é. Ainda mais que um deles pode ser do Tibete (mas legendado em cantonês, claro…pra facilitar…). Se cada filme tiver 2 horas de duração, serão 664 horas. Para assistir a todos você levaria 27 dias. 27 dias sentado no escuro, sem sexo e nem cerveja. Descarte alguns. Sim, o do Tibete é uma boa pedida…

Faz mal assistir a tanto filme?
Pode fazer. Depois de dezenas horas de poltrona é capaz de você desenvolver hérnia de disco, hemorróidas e ainda acabar falando coisas ridículas como “O cinema coreano faz um interessante diálogo dicotômico entre fantasia e inconsciente coletivo de premissas jungianas”. Isso não é legal. E você pode perder a sua (seu) namorada(o). Que provavelmente tem mais o que fazer do que ver aquele filme sobre a vida nas savanas da Zâmbia (lá tem savana? Não sei, nunca fui pra lá…).

Quais filmes devo ver?
Não se preocupe com os filmes. Preocupe-se com as filas. São mais legais que os filmes. É nas filas que você vai exibir o seu intelecto e o seu charme descolado. Quanto maior a fila, melhor. Dá para falar para os outros que você acha Tarkovsky um deus e que o cinema espanhol é inteiramente calcado na experiência de Carlos Saura. Uma bobagem dessas. Vai parecer coisa de fresco, mas pega bem. Ok, É MESMO coisa de fresco. Mas as estudantes de letras vão adorar.

Mas eu quero ver filmes, pombas!
Ok, ok…Escolha os filmes pelo grau de “exotismo”. Não precisa gostar. Apenas tente permanecer na sala até o final. Não ronque. Leve um joguinho eletrônico, se quiser. Eu recomendo.

De quais filmes eu devo gostar?
Ótima pergunta. Você não pode curtir ou detestar qualquer filme. Deve seguir o gosto da média. Aqui vai um resumo. Todo filme asiático é bom. Mesmo os pavorosamente ruins. Filmes espanhóis são corretos e os iranianos são “difíceis e intensos”. O que, lógico, não quer dizer muita coisa. Dores de barriga também são difíceis e intensas. Mas filme cabeça é assim mesmo: complicado de explicar.

Mas como eu vou reconhecer os filmes asiáticos, espahóis e iranianos?
É fácil, né? Nos filmes asiáticos todo mundo tem olho puxado, nos espanhóis todos fazem sexo e nos iranianos tem sempre uma criança correndo atrás de uma bola ou uma pipa. Que, como você deve saber, não são bolas ou pipas, mas sim metáforas do desejo reprimido de liberdade.

O que falar na saída do cinema?
Faça o seguinte: coloque as mãos no peito, respire fundo e diga: “É báááárbaro!” Pronto, você será visto como uma pessoa sensível.

Mas para que eu vou ver os filmes da Mostra?
Para ampliar os seus horizontes cinematográficos. Para alimentar a alma…Para…ah, quer saber? É para ficar bem na fita. Só isso. E também para desfilar com aquele casaco novo seu. Se existe outra razão eu não sei…